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La Duchesse de Guermantes.
23 December 2008 @ 08:36 pm
WHEN MAN ENTERS WOMAN
by Anne Sexton

When man
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth in pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashed their rivers.

This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot.




In Portuguese:


QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER
Anne Sexton

Quando o homem
entra na mulher,
como a onda mordendo a costa,
de novo e de novo,
e a mulher abre a boca de prazer
e seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó
para que assim
nunca mais estejam separados
e a mulher
trepa numa flor
e engole seu talo
e Logos aparece
e desencadeia seus rios.

Este homem,
esta mulher
com sua dupla fome,
têm procurado penetrar
a cortina de Deus
e conseguem brevemente,
embora Deus
em Sua perversidade
desate o nó.


[Tradução: Priscila Manhães e Ivan Justen]


*


“O amor é a compensação da morte.” [SCHOPENHAUER, Arthur]


“O amor é o objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.” [SCHOPENHAUER, Arthur. In: O Mundo Como Vontade e Representação]


*


“Vê, pois, se jamais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo és a minha Divindade – para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração.”

(...)

“O que eu desejaria na verdade é que fosses invisível para todos e como não existente – que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rígida mudez ocultasse a tua inteligência. Assim passarias no mundo como uma aparência incompreendida. E só para mim, de dentro do invólucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante.”


[QUEIRÓS, Eça de. Cartas D'Amor - O Efêmero Feminino. Rio de Janeiro: Garamond, 2001.]



*



SEUS OLHOS.


As duas piscinas que me convidam a afogar-me, duas plantas marítimas, dois espelhos de Narciso, as duas janelas da alma, escancaradas, transparentes, nuas, livres de grades e vidraças, despreocupadas, permitindo que o meu feixe de luz penetre na mobília, ilumine as paredes corroídas pelo tempo e pelo abandono, que os meus punhos de escritora amadora sejam os primeiros raios solares a povoar o ambiente deserto, o vento vivo a soprar no quarto abafado, com o meu hálito varrer a poeira e a ferrugem de seus móveis e com os meus beijos ressuscitar os mortos de suas covas.

As duas faces de sua moeda, dois punhados de gramado verde-cintilante, duas passagens para a Europa, os dois buracos na parede que me incitam a espionar o interior, a escancarar portas e janelas, quebrar os vidros, violar a fechadura, insurgir-me com violência para dentro do seu casulo, descobrir que a muralha de pedras guarda um castelo de areia, que o grande homem que me amarra em seus braços ainda é um pequeno menino sentado em meu colo maternal, meu corpo de volúpia e inocência, de amante e mãe, meu corpo deslocado do mundo, colado ao seu.

As duas luzes piscando na escuridão, duas partes de um todo, dois pedaços de mar em tempo nublado, as suas ondas me cobrem até a cabeça quando me tranco dentro de você, as suas águas bravas se inquietam quando tento domá-las, o seu leão ruge impetuosamente diante de meu chicote de domador, quero me infiltrar em você, quero ser levada através de suas correntezas, marcar veias e artérias, sinalizar a sua carne que agora é minha, quero ser os órgãos vitais para o seu sistema linfático e circulatório, quero ser o cerne, o centro de toda a luz que você escondia e agora exala.

As duas lanternas na selva, as duas bússolas do navegante, duas frestas discretas escondidas no fundo do cofre, o segredo que só eu posso desvendar, a minha chave é a única que abre essa fechadura, uma chave que restou cega por quase toda uma existência, uma chave dura, enferrujada, difícil, oculta e, como se estivesse escrito em algum livro apocalíptico e desenhado em bola de cristal, você a desenterrou, correu para ela com tanta voracidade que quase a engoliu, teve a fome que nunca mais pensou que pudesse sentir, queria comê-la com o olhar, queria sentir cheiro de vida, queria existir.

As duas piscinas que me convidam a afogar-me, as duas faces de sua moeda, as duas luzes piscando na escuridão, as duas lanternas na selva, os seus olhos me entorpecem como o álcool ao ébrio, os seus olhos me convidam a sentir o perfume de seu espírito e a beber de sua essência, os seus olhos me paralisam como se você vestisse a carapuça de uma Medusa, os seus olhos me atam com seus raios verdes, os seus olhos me encantam, envolvem-me o corpo como duas Cobras D'água se enrolando até o meu pescoço, quero arrancá-los como um Édipo Rei, quero abrir as suas janelas somente para mim.


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Current Mood: content
Current Music: Ella Fitzgerald - "The Man I Love".
 
 
La Duchesse de Guermantes.
15 December 2008 @ 12:04 am
“I´ve crossed the oceans of time to find you.”[Bram Stoker´s Dracula]


"Apesar de tudo, continuamos amando; e esse ‘apesar de tudo’ cobre um infinito." [CIORAN, Emil. Silogismos da Amargura]

*

Pois quando a água passava pelo seu ponto de fusão, os átomos que estavam praticamente unidos, formando um todo sólido, como que, em uma explosão, afastaram-se e retornaram ao estado líquido, cercados por uma série de palitos de fósforo, piscando, alertando que ainda seria possível um resquício de encanto em meio a tanto desencantamento, que não poderiam tomar o corpo de pedra quando os mesmos ainda pareciam tão maleáveis, a cortiça dura e grossa que escondia o núcleo repleto de floema e xilema, o cerne da existência, uma nova possibilidade, um sorriso amarelado com um leve ranger de dentes, o sangue correndo quente através de veias e artérias, o sangue que parecia paralisado, inerte, devidamente silenciado com todas as dores do mundo que não mais poderiam transpor o seu escudo de cavaleiro, o homem escondido na pele do lobo, o lobo saindo pela boca do homem, os lábios túrgidos, os olhos levemente brilhantes, o coração velho e saturado que voltou a emitir estrondos de uma proporção inimaginável, as suas palavras atravessaram o gelo como um raio laser, trincaram a redoma, arrancaram um pouco da razão, aproximaram o coração lupino do humano, pressionaram o rompimento do fino elástico que atravessava o abismo entre o selvagem e o civilizado, estremeceram as bases da minha fortificação de areia, fizeram correr mais lentamente os grãos que caem de um lado para o outro da ampulheta, derreteram os relógios, amarraram o tempo, roubaram os segundos que passei a contar impacientemente até o seu próximo suspiro, a sua respiração forte arrepiando o meu pescoço, as suas mãos firmes acalmando os ânimos das minhas, nervosas e trêmulas, a sua voz segura que aniquilou o meu sistema de segurança, a sua razão que sugou um pouco da minha, o seu ar que parece tão meu, o meu olhar que parece tão seu, os átomos que antes se viam fusionados agora aparentam estado de ebulição, afastados, agitados, tensos, sinto-me quente em meio a tantos palitos de fósforo que piscam enquanto me perco na escuridão, apagaram as luzes do meu cérebro, deixo que a penumbra me guie para um todo amorfo, para o grande espetáculo, para o algo que acreditava inexistente e agora lateja através dos meus membros, bate incessantemente como os ponteiros dos segundos, mantém o meu corpo vivo e anestesiado, a minha alma em êxtase, o racional pequeno e encolhido no canto de minha mente, quase excluído desse mundo no qual o tempo não passa enquanto você não aparece e voa quando está presente, um mundo no qual você se encontra tão perto que sinto medo de atravessar a rua para tocar a sua boca, prossigo contando o tempo com a sua imagem cravada nos pensamentos, esvaindo-se como o seu nome que escrevi na areia, jurei que não ocorreria mais, jurei que permaneceria eternamente fusionada, quebrei os juramentos, cedi aos anseios destes sentimentos shakespearianos, troquei a calma pela turbulência, voltei a buscar a revolução, apesar de tudo, sim, porque é desta forma que eu posso me enxergar além da existência, ébria e enlouquecida, perto do animal, soltando por alguns milésimos de segundo o lobo que vive acabrunhado e latente, preso na garganta.


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[MUNCH, Edvard. Assassínio de Marat]


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Current Mood: happy
Current Music: Glen Hansard & Markéta Irglová - "Falling Slowly".
 
 
La Duchesse de Guermantes.
26 October 2008 @ 12:18 am
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O agravante da culpa, a liberdade que aprisiona o homem, que alastra o fedor e a peste de todos esses cadáveres que vou esparramando por aí e torna todos os meus crimes injustificáveis.

É a liberdade que massacra, que rói o coração, que me responsabiliza por todos os erros e por toda a desgraça do mundo, que me torna um cão sem guia em busca de ossos enterrados por outrem.

As idéias magras, a liberdade me come pelas beiradas, chove nas fogueiras para apagar os sinais de fumaça, sublima todos os vestígios, varre as pegadas, estende o labirinto, venda os olhos.

A liberdade me trai e me arranca as muletas, exige que eu caminhe manco para o grande nada, que eu consiga olhar para a frente e encare o vazio, equilibrando-me sobre a esguia corda que atravessa o penhasco.

Um fardo de culpas e lágrimas é o preço que pago pela liberdade, olho ao meu redor e não consigo encontrar nenhum jumento para carregar essa imensa cruz que me entorta as costas e a alma.

Esse tudo e esse nada que é o homem, a vida que a minha amargura destrói, camuflo a minha liberdade entre as roupas mofadas para que ninguém enxergue essa corrente que me aperta os tornozelos.

Trata-se de uma liberdade indigesta que eu insisto em mastigar para engoli-la, mas o estômago expele, regurgita, devolve inteira para que eu prossiga suportando a culpa por não ter feito nada melhor com ela.

Liberdade essa que me esfrega nessa fuça lacerada que eu fracassei desde o dia em que nasci, que me escondi através de falsas grades para não olhar o retrato vil e impotente no espelho.

Impossível me redimir dos pecados, porque a liberdade belisca o corpo inteiro para que fique em eterna lucidez e não se mova a fim de construir estátuas de barro para me cercar em reclusão.

Sombria liberdade que me atira nos braços de um destino que eu mais destruí que construí, desacompanhada de fraternidade e de igualdade, solitária como o meu futuro, será que um dia eu vou me perdoar?

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“(…)Je suppliais, je quémandais un signe, j’envoyais au ciel des messages: pas de réponse. Le ciel ignore jusqu’à mon nom. Je me demandais à chaque minute ce que je pouvais être aux yeux de Dieu. À présent je connais la réponse: rien. Dieu ne me voit pas, Dieu ne m’entend pas, Dieu ne me connaît pas. Tu vois ce vide au-dessus de nos têtes? C’est Dieu. Tu vois cette brèche dans la porte? C’est Dieu. Tu vois ce trou dans la terre? C’est Dieu encore. Le silence, c’est Dieu. L’absence, c’est Dieu. Dieu, c’est la solitude des hommes. Il n’y avait que moi: j’ai décidé Seul du Mal; Seul, j’ai invente le Bien. C’est moi qui ai trinché, moi qui ai fait des miracles, c’est moi qui m’accuse aujourd’hui, moi seul qui peux m’absoudre; moi, l’homme. Si Dieu existe, l’homme est néant; si l’homme existe…Où cours-tu?”

[SARTRE, Jean-Paul. In: Le Diable et le Bom Dieu]




En Portugais:

“(...) Supliquei, pedi um sinal, enviei mensagens ao Céu: nenhuma resposta. O Céu ignora até o meu nome. Eu me perguntava, a cada minuto, o que eu poderia ser aos olhos de Deus. Agora, já sei a resposta: nada. Deus não me vê, Deus não me ouve, Deus não me conhece. Vês este vazio sobre nossas cabeças? É Deus. Vês esta brecha na porta? É Deus. Vês este buraco na terra? É Deus ainda. A ausência é Deus. O silêncio é Deus. Deus é a solidão dos homens. Eu estava sozinho: sozinho, decidi o Mal; sozinho inventei o Bem. Fui eu quem trapaceou, eu quem fez milagres, eu quem se acusa, agora, eu, somente, quem pode absolver-me. Eu, o homem. Se Deus existe, o homem nada é; se o homem existe... para onde vais?"

[SARTRE, Jean-Paul. In: O Diabo e o Bom Deus]



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O mais terrível segredo de deus é a liberdade do homem?

(Inicial Minúscula)


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Livre na saúde e na doença.


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[KLIMT, Gustav. Bauerngarten mit Kruzifix]


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Current Mood: sore
Current Music: The Rolling Stones - "As tears go by".
 
 
La Duchesse de Guermantes.
21 October 2008 @ 12:47 am
Em fase de releituras:

XXXVI

FUE UNA ESPERA interminable. No sé cuánto tiempo pasó en los relojes, de ese tiempo anónimo y universal de los relojes, que es ajeno a nuestros sentimientos, a nuestros destinos, a la formación o al derrumbe de un amor, a la espera de una muerte. Pero de mi propio tiempo fue una cantidad inmensa y complicada, lleno de cosas y vueltas atrás, un río oscuro y tumultuoso a veces, y a veces extrañamente calmo y casi mar inmóvil y perpetuo donde María y yo estábamos frente a frente contemplándonos estáticamente, y otras veces volvía a ser río y nos arrastraba como en un sueño a tiempos de infancia y yo la veía correr desenfrenadamente en su caballo, con los cabellos al viento y los ojos alucinados, y yo me veía en mi pueblo del sur, en mi pieza de enfermo, con la cara pegada al vidrio de la ventana, mirando la nieve con ojos también alucinados. Y era como si los dos hubiéramos estado viviendo en pasadizos o túneles paralelos, sin saber que íbamos el uno al lado del otro, como almas semejantes en tiempos semejantes, para encontrarnos al fin de esos pasadizos, delante de una escena pintada por mí, como clave destinada a ella sola, como un secreto anuncio de que ya estaba yo allí y que los pasadizos se habían por fin unido y que la hora del encuentro había llegado.¡La hora del encuentro había llegado! Pero ¿realmente los pasadizos se habían unido y nuestras almas se habían comunicado? ¡Qué estúpida ilusión mía había sido todo esto! No, los pasadizos seguían paralelos como antes, aunque ahora el muro que los separaba fuera como un muro de vidrio y yo pudiese verla a María como una figura silenciosa e intocable... No, ni siquiera ese muro era siempre así: a veces volvía a ser de piedra negra y entonces yo no sabía qué pasaba del otro lado, qué era de ella en esos intervalos anónimos, qué extraños sucesos acontecían; y hasta pensaba que en esos momentos su rostro cambiaba y que una mueca de burla lo deformaba y que quizá había risas cruzadas con otro y que toda la historia de los pasadizos era una ridícula invención o creencia mía y que en todo caso había un solo túnel, oscuro y solitario: el mío, el túnel en que había transcurrido mi infancia, mi juventud, toda mi vida. Y en uno de esos trozos transparentes del muro de piedra yo había visto a esta muchacha y había creído ingenuamente que venía por otro túnel paralelo al mío, cuando en realidad pertenecía al ancho mundo, al mundo sin límites de los que no viven en túneles; y quizá se había acercado por curiosidad a una de mis extrañas ventanas y había entrevisto el espectáculo de mi insalvable soledad, o le había intrigado el lenguaje mudo, la clave de mi cuadro. Y entonces, mientras yo avanzaba siempre por mi pasadizo, ella vivía afuera su vida normal, la vida agitada que llevan esas gentes que viven afuera, esa vida curiosa y absurda en que hay bailes y fiestas y alegría y frivolidad. Y a veces sucedía que cuando yo pasaba frente a una de mis ventanas ella estaba esperándome muda y ansiosa (¿por qué esperándome? ¿y por qué muda y ansiosa?); pero a veces sucedía que ella no llegaba a tiempo o se olvidaba de este pobre ser encajonado, y entonces yo, con la cara apretada contra el muro de vidrio, la veía a lo lejos sonreír o bailar despreocupadamente o, lo que era peor, no la veía en absoluto y la imaginaba en lugares inaccesibles o torpes. Y entonces sentía que mi destino era infinitamente más solitario que lo que había imaginado.


[SÁBATO, Ernesto. El Túnel]






*


O Túnel



Saudades daqueles que se aproximavam de minha jaula, daquela multidão que farejava o meu perfume e me devorava com os olhos, arrancava pedaços de carne pura, perfurava a minha alma e mordia o meu coração.

Quando eu ainda era muito jovem para prosseguir, mas muito velha para fugir com o circo.

E você me parecia outro animal enjaulado, solitário, estendendo as duas mãos em minha direção.

Saudades da tragicidade daquele meu pequeno espetáculo fúnebre, as pessoas se acotovelavam para enxergar melhor a Mulher Elefante enlouquecida, roubar-lhe um pouco da monstruosidade que fez dela o pouco que pôde ser.

Quando os meus ouvidos eram por demais velados para notar os seus passos vindo do fim do túnel.

E você segurava o meu corpo contra o seu, tempestade e ímpeto, pressionava-me com a força de um igual.

Saudades das arquibancadas repletas de juízes que me condenavam pelos diversos crimes que não cometi, mas que me faziam humana diante de meus processos, que me beliscavam para perceber que havia vida.

Quando os meus ouvidos eram surdos para o seu eco de prisioneiro, eu abafava os seus gritos.

E você beijava os meus lábios túrgidos através das grades, enquanto meus outros sentidos o ignoravam.

Saudades das dores, das verdades que desabavam sobre a minha cabeça leve para me acordar, para me arrancar do sono profundo da infância, provar do fruto proibido e me perder no inferno que os outros me proporcionaram.

Quando eu não havia percebido que você havia me tocado mais fundo do que eu imaginava ser possível.

E você ainda procurava a minha cama quente para se proteger do longo inverno de seu túnel.

Saudades daqueles rostos diferentes que formavam um todo homogêneo, uma colcha humana, traços que se desfaziam em um quadro, risos que desapareciam, copos e garrafas no chão, de repente o silêncio.

Quando me dei conta de que estava presa em um túnel só meu, eu estava só em minha cela.

E você me olhava de cima como que para brincar com um fantoche, depois fugia, existia de longe.

Saudades de quando eu conseguia respirar um pouco de ar fora desse túnel, camuflar-me entre os iguais, tornar-me um ordinário, fingir-me normal, dançar conforme a música, dançar.

Quando soube que você não tinha um túnel para atravessar o meu, que você era meu por um milésimo de segundo.

E você mexia comigo para se distrair, enquanto fosse conveniente, para depois ir embora.

Saudades de quando eu pensava que você voltaria, sabia que era daqueles que existiam fora do túnel, mas ainda assim gostaria que continuasse brincando com os meus anseios, fazendo correr sangue em minhas veias.

Quando você me fazia pensar que era puríssimo desejo, que lia a minha mente e me aguardava.

E você me derrubou do alto de meus sonhos para cair no túnel, sozinha, enquanto partia sem possibilidade de retorno.


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Current Mood: lonely
Current Music: David Bowie - "Velvet Goldmine".
 
 
La Duchesse de Guermantes.
10 October 2008 @ 11:38 pm
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Mal você sabe, mas quando me toca assim, de leve, perfura todas as minhas cláusulas pétreas, o núcleo aparentemente intransponível, a minha cortina de ferro se desfaz em pequenas partículas atômicas, prótons, nêutrons, elétrons, você sussurra no meu ouvido surdo e ecoa até a morte, as sílabas se derretem e penetram por toda a minha estrutura, os músculos se contraem, as pernas se entrelaçam como se houvesse algo entre as mesmas, como se os seus átomos estivessem entre os meus, como se o seu ar fosse o meu, como se de heterogêneos e separados por milhas de oceano, fôssemos apenas um todo homogêneo, de uma mistura a uma substância, de estrangeiros a nacionais, quase consangüíneos, gêmeos de um único vitelo, diferenciados por pequenas imperfeições naturais, equívocos da natureza que me plantaram em um jardim tão longe do seu, tão só, tão dura, inultrapassável, pujante, cravada no solo, presa em minhas próprias entranhas, completamente insensível aos toques alheios, inexorável, surda e muda, perdida no tiquetaquear do relógio, esmagada pela areia que desce como um jato pela ampulheta, esperando, distraída, rezando para que os seus olhos apontem para mim como faróis no fim do túnel, para que consiga quebrar as minhas pedras, perfurar através da minha dureza, colocar um ponto final no meu ser inabalável, expor as minhas fraquezas, despir a capa de aço para chocar o mundo com tanto oco, para calar esse grito que eu engulo todos os dias e todas as vezes em que você desaparece, que eu seguro para não terminar matando você em mim, esse podre, esse membro gangrenado que eu insisto em manter semi-vivo na esperança de uma ressurreição, com medo de que o remédio saia pior do que a doença, de que o aleijão me custe mais caro, termine de arrancar o pouco de ser humano que ainda parece existir em mim, uma parte eternamente perdida que eu mantenho, às vezes sinto alguma pulsação, um resquício de vida, você me engana por algum motivo, você surge do outro lado do vidro, coloca as mãos em compasso com as minhas, encosta-se por inteiro e age como se fosse uma tela de televisão, tão longe, tão perto, coloco os dedos e não alcanço, fecho os punhos para quebrar esse abismo transparente e, de repente, você desaparece, como uma alucinação, deixa-me esfacelada e aberta, as minhas pedras estouradas, desfeitas, nasce uma espécie de fragilidade que me toma de tal maneira que eu só sinto necessidade de saber que você existe e é cônscio da minha existência, que um dia eu também já tive forças suficientes para derrubar as suas cláusulas pétreas, que pude encontrar a sua alma enquanto tocava a barreira de vidro, que você sentiu as minhas lágrimas de cristal rolarem pelo chão enquanto tentava beijar-lhe o ombro, que você tirou repentinamente, você se retirou do meu caminho sem autorização, tornou-se uma sombra que às vezes aparece para me lembrar de que já houve vida, de que eu não apenas respirei um dia, você é o meu castigo por um dia ter vivido, o semblante do meu cárcere, as migalhas pisadas que sobram para o faminto, uma imensa bota que esmaga o meu rosto e escurece o meu futuro, um possível futuro sem as suas amarras, talvez impossível, porque não consigo mais despertar o corpo, é como se a parte podre fosse o centro vital, o cérebro e o coração da máquina, quando tento amputá-la, não consigo, respiro fundo e prossigo nesse círculo vicioso no qual transformei a sua imagem, esse seu comportamento extremamente passivo que consegui tornar ativo a ponto de me torturar e imaginar que você saiba disso, que você se lembre de que eu existo, que se eu cruzar os braços e amarrar a cara, você ressurgirá das cinzas para salvar o meu dia, para depois partir e destruir a minha vida, mas você não lê os meus pensamentos, você não sente o meu sangue correr, você não sabe que eu respiro, você nunca quis saber, só esse você que eu desenho no ar para prosseguir distraída, dura e intacta para os outros, acessível somente aos seus beijos, virgem e pronta para perder o viço, murchar e encolher sozinha, delirando com os resíduos de memória de nós dois que me sobraram, não sei o que será, não me lembro mais do seu rosto.


*

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*

Please, don't spoil my day, I'm miles away,
And after all, I'm only sleeping...



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Esqueci o seu rosto.


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Current Mood: drunk
Current Music: Oasis & Stereophonics - "I´m Only Sleeping" (Beatles Cover).
 
 
 
 

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