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La Duchesse de Guermantes.
08 October 2010 @ 09:37 pm
(...)

[48]

Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.

A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.


[49]

O isolamento talhou-me à sua imagem e semelhança. A presença de outra pessoa — de uma só pessoa que seja — atrasa-me imediatamente o pensamento, e, ao passo que no homem normal o contato com outrem é um estímulo para a expressão e para o dito, em mim esse contato é um contraestímulo, se é que esta palavra composta é viável perante a linguagem. Sou capaz, a sós comigo, de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com pessoa nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem físico, perco a inteligência, deixo de poder dizer, e, no fim de uns quartos de hora, sinto apenas sono. Sim, falar com gente dá-me vontade de dormir. Só os meus amigos espectrais e imaginados, só as minhas conversas decorrentes em sonho, têm uma verdadeira realidade e um justo relevo, e neles o espírito é presente como uma imagem num espelho.

Pesa-me, aliás, toda a ideia de ser forçado a um contato com outrem. Um simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia difícil de definir. A ideia de uma obrigação social qualquer — ir a um enterro, tratar junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa qualquer, conhecida ou desconhecida —, só essa ideia me estorva os pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a aprender.

“Os meus hábitos são da solidão, que não dos homens”; não sei se foi Rousseau, se Senancour, o que disse isto. Mas foi qualquer espírito da minha espécie — não poderei talvez dizer da minha raça.


(...)

[SOARES, Bernardo."O livro do desassossego"]


*


"You're a no good... heartbreaker
You're a liar... you're a cheat
And I don't know why I let you do that thing to me


*

Oh yeah, I never loved a girl the way that I love ya.

*
 
 
Current Mood: contemplativecontemplative
Current Music: Aerosmith - "Never loved a girl".
 
 
La Duchesse de Guermantes.
28 March 2010 @ 05:37 pm
Ultimamente, não tenho mais o que escrever. Melhor chamar os grandes para resumirem o que se passa pela cabeça da gente. O mundo já não é mais mágico e eu já não serei mais feliz.

*

1964

I

Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
ni los lentos jardines. Ya no hay una
luna que no sea espejo del pasado,

cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las sienes
que acercaba el amor. Hoy sólo tienes
la fiel memoria y los desiertos días.

Nadie pierde (repites vanamente)
sino lo que no tiene y no ha tenido
nunca, pero no basta ser valiente

para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.


II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta

y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna

y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.

Sólo que me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.


[BORGES, J.L.]

*
 
 
Current Mood: discontentdiscontent
Current Music: SPFC x Corinthians - E o SPFC está perdendo.
 
 
La Duchesse de Guermantes.
20 March 2010 @ 03:09 pm
Era a mulher branca como uma pérola, desfilando suas curvas não tão proeminentes naquele flat em Porto Alegre. Era a mulher com suas tatuagens delicadas e minimalistas, como ela própria, uma pequena orquídea alva, andar suave – e não me esqueço de quando usava saltos, sempre tornava a virar um dos pés quando caminhava pelos paralelepípedos, e eu dizia: eu sabia que isso iria acontecer, puxando-a pela mão, como uma menininha travessa de quem é preciso cuidar para que não caia ou seja atropelada, sim, desatenta – , era a mulher pequena e esbelta, uma miniatura de mulher, uma menina como Alice no País das Maravilhas, trazendo dentro de si um vasto mundo do que é vazio e do que é pleno, a mulher branca e pequena toda para mim, cabia inteira em minhas mãos, não tão delicadas quanto as extremidades rosadas da deusa, talvez por isso a tenha deixado escapar tão facilmente, sem culpa, como Stevie Wonder a quilômetros de seu piano, por dentro, muito jovem para compreender o valor dos verdadeiros tesouros e abandonar meu inferno habitual, muito velho para escapar do meu inferno habitual, não tão irresponsável para buscar em uma menina o homem de quem eu preciso, já que nesse mundo as mulheres são homens e os homens são meninos, essa é apenas uma menina, uma menina linda que era a estrela que caiu no meu colo sem avisar, o brilho é intenso e me cega, não consigo visualizar as dimensões do oco que vai me restar quando essa estrela se apagar, não consigo nem compreender o significado do que tenho em mãos, não tenho consciência daquilo que pode vir a ser uma perda, e não é quando a menina morre, mas sim, quando foge de mim, porque aquele que foge é mais do que morto, o amor perdido está além do morto, o amor que eu não sei se sinto, na realidade, ele não é palpável, o amor é abstrato, o amor não se explica, o amor é quase tão intocável quanto a fé e as coisas de religião, há aquela margem de irracionalidade, aquele lado obscuro que ninguém encosta e ninguém vê, o lado que assusta, e eu sou um pobre menino assustado com tudo isso, como se passasse praticamente trinta e seis anos no limbo e , de repente, caiu uma estrela brilhante em minhas mãos e eu simplesmente não sei o que fazer com ela, o seu brilho em vez de me clarear a visão, por enquanto, cega-me, a sua luz em vez de me provocar admiração e deleite, espanta-me, ainda sou um menino, tenho medo do novo, tenho medo de agir, tenho medo de segurar essa estrela em minhas mãos e a deixo cair, não tenho o cuidado suficiente para carregar comigo tanta luz, tanto brilho, ainda preciso do limbo e do inferno para compreender o incompreensível e preciso da amargura do tempo para tentar curar o irremediável, não posso contemplar as pérolas que me são dadas, ainda não consigo me definir, ainda não consigo definir o que estou a ponto de perder, não consigo tirar os olhos da televisão para perceber a pequena estrela que se senta na cadeira de palha, fuma um cigarro e lê o seu recém-comprado Bioy Casares, não consigo sentir os delicados braços que me abraçam e dizem que tudo vai ficar bem, não posso ainda lamentar a perda daquilo que eu nem tive coragem de experimentar, mas temo um dia querer engolir as pérolas uma a uma, recuperar o tempo perdido, buscar aquele proustiano tempo redescoberto, talvez um dia eu esteja contemplando a final da champions sozinho e me lembre daquela estrelinha que eu tive em mãos, a estrela que poderia me acompanhar, mas eu deixei cair, talvez um dia eu sinta o peso das minhas decisões e queira mesmo contemplar o inferno para me redimir da culpa, a culpa de ter percebido tão tarde tudo o que eu deixei passar e perdi, a pérola de Poa.

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Current Mood: blahblah
Current Music: Blur - "No distance left to run".
 
 
La Duchesse de Guermantes.
19 March 2010 @ 10:58 pm
Muito pertinente, monsieur.

"Deliberadamente, e sem que eu tivesse convidado, você se introduziu no meu mundo, tomando um lugar ao qual não tinha nenhum direito ou qualquer qualificação que o torna-se digno de ocupá-lo. E por ter se tornado, graças à sua presença constante e uma curiosa insistência, numa parte essencial de cada dia, conseguiu absorver toda a minha vida e não soube fazer nada melhor do que destroçá-la. Por mais estranho que isso possa parecer-lhe, era apenas natural que o fizesse. Quando damos a uma criança um brinquedo demasiado complexo para que sua pequenina mente possa entendê-lo, ou demasiado belo para que seus olhos que ainda mal conseguem ver, ela acabará por quebrá-lo, se for travessa; ou, se for descuidada, irá abandoná-lo para brincar com seus companheiros”.

[WILDE, Oscar. De profundis]

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A ferida ainda sangra. O sangue não estanca. Não é fácil matar os sonhos.

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Current Mood: blankblank
Current Music: Lykke Li - "Possibility".
 
 
La Duchesse de Guermantes.
18 March 2010 @ 06:56 pm
O sonho acabou.

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Current Mood: accomplishedaccomplished
Current Music: Lykke Li - "Possibility".