Prossigo atirando os malditos copos nessa maldita parede amarelecida, amarelecida que nem esse papel com a frase de Gógol que você me entregou quando não disse, mas eu senti, eu senti que você sentia amor, eu senti que éramos nós dois, amarelecida que nem os meus dentes que eu cravo nos braços para sentir a dor, porque para me livrar de uma, preciso de uma maior, porque não me basta atirar esses copos, preciso de mais do que enxergar o brilho dos cacos espalhados pelo chão, preciso de mais do que o estrondo, preciso de mais do que esse barulho de coisa quebrada, preciso sentir os cacos na pele, preciso juntar cada pedacinho de vidro e enterrar no corpo, preciso tornar o meu corpo um mosaico, preciso dançar o tango sem acompanhante sobre esses pedacinhos de vidro reluzentes no chão, preciso pisar descalça, preciso rezar um pai nosso para um pai que não existe, preciso me lamentar por ser uma bastarda, preciso enxergar o seu rosto nesses cacos, preciso quebrar você com os copos, preciso esquecer os meus copos meio-cheios e voltar aos meus copos meio-vazios, preciso fincar os cacos embaixo das unhas, preciso entupir os ouvidos com vidro, preciso cobrir cada orifício com esses restos, com os resquícios desse amor de cristal, com os detritos desse amor que eu criei, preciso quebrar esses porta-retratos, preciso quebrar meu coração, preciso quebrar a minha memória que há muito só é você, preciso quebrar as expectativas, quebrar aquela ponta de felicidade que parecia brotar antes do fatídico, antes de a outra passar o extintor nessa pequena chama, nessa pequena luz, esperança, antes de ela tomar de mim o que era dela, o que sempre foi, antes de ela enfiar os vidros na minha garganta, antes de eu atirar esses malditos copos na parede amarelecida, antes de eu juntar os cacos dos meus copos, os cacos de mim, antes de eu mastigar o vidro, sangrando inicialmente pela boca, ingerindo esses pedacinhos que me cortam por dentro, que me rasgam e aniquilam, que me matam por dentro, enquanto no ventre da outra há a vida, no meu há a morte, no meu há o seco, a solidão, os vidros rasgando as paredes, os órgãos, os sentidos, também eu estou prenhe, mas prenhe de angústia, de dor, de loucura, de culpa, de horror, atiro os copos nas minhas paredes internas, atiro os copos para cessar a outra dor, que essas feridas se abram a ponto de sublimar o que está sendo, que o sangue escorra até o fim, que o sangue se esparrame entre os vidros, que o sangue marque o meu corpo como o seu esperma, que o sangue deite as minhas pálpebras, que eu possa finalmente fechar os olhos, que eu possa esquecer que não sou eu quem carrega um pedaço de você, que não foi em mim que você plantou, que continuo uma maldita estéril sozinha atirando copos contra uma parede amarelecida, engolindo cacos de vidro, esfregando meus pulsos abertos nesses pedaços de copo no chão, abortando o que não era para não abortar o que é, morrendo lento entre lágrimas e sangue, morrendo lento nos braços do vento, morrendo lento sobre esses cacos de vidro, acabaram-se os copos, que venham os pratos.
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And I will love until my heart it aches
And I will love until my heart it breaks
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Current Mood: 
depressed
Current Music: Amy MacDonald - "Run".